Graduada em Jornalismo, Jéssica Paula abordou a temática dos refugiados na África

 

Foto: Luis Gustavo Prado/ Secom UnB


Enquanto os colegas elaboravam proposta de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para finalizar a graduação em Jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, em 2013, Jéssica Paula buscava em pesquisas o país mais remoto, improvável e perigoso da África. Estava decidida a visitar o continente e colher material para produzir um livro-reportagem. “Queria que o trabalho não ficasse só na apresentação para a Faculdade. Já que ia ser um desafio, que fosse também um portfólio meu”, conta. E assim o fez: depois de graduada, a jovem iniciou um crowdfunding [financiamento coletivo] na internet para custear a publicação. No final de 2015, lançou o livro Estamos Aqui - Histórias das vítimas de conflito no leste africano, por uma editora independente. “A ideia era que o livro me lançasse no jornalismo”, diz.


Em maio de 2013, portanto, a estudante embarcou para o continente africano. O objetivo era contar as histórias das pessoas afetadas pelo conflito que resultou na secessão da porção sul do Sudão e na formação do novo país: Sudão do Sul. Começou pela Etiópia, depois passou pelo Sudão, Sudão do Sul e, finalmente, Uganda, onde contraiu malária. A viagem acabou em julho do mesmo ano.


Orientada pelo professor Sérgio Sá, Jéssica Paula procurou referências em diversos autores e profissionais da área. Dentre eles, destaca a jornalista Eliane Brum e o fotógrafo Sebastião Salgado. “De Eliane Brum, peguei os toques de subjetividade, de poesia. De Salgado, estudei o registro fotográfico em situações extremas”.

 

O estudo de fotojornalismo foi importante para o TCC. As páginas do livro são permeadas por fotos assinadas por Jéssica Paula. “Não dava para fazer uma grande reportagem porque era muito material. Precisava ser um livro-reportagem, para que eu tivesse liberdade de extensão. E também tivesse espaço para publicar as fotografias, porque é uma história que não dá para imaginar. É preciso ver”, afirma.


INÍCIO – Para decidir o destino, a jornalista recorreu à internet. “Queria algo de que ninguém falava. Queria construir um material inédito. Busquei no Google os países que tinham a menor quantidade de informações. Os mais exóticos. Cheguei ao Sudão. Vi um alerta na Wikipédia informando para não ir para lá. Então, pensei: 'Que ótimo, é para lá que vou'”, descreve.

 

“Resolvi que iria escrever sobre os lados da guerra, vítimas, histórias de pessoas ligadas ao conflito”, continua. Jéssica Paula foi uma das primeiras cidadãs brasileiras a ir para a região depois da independência do Sudão do Sul, em 2011.


No itinerário escolhido, a estudante permaneceu 15 dias em cada lugar. A primeira cidade foi Asosa, na Etiópia. “Próximo dessa localidade, há grande população de refugiados de conflitos, parte deles oriunda do Sudão do Sul e do Sudão”, conta.


“Na época, achava que as pessoas iam para um campo daqueles por questão de opção. Mas não é. É resultado de um conjunto de acontecimentos, que começa a partir da ação de tropas ou milícias que invadem algum vilarejo, matam homens, estupram mulheres e roubam crianças para trabalhar como crianças-soldado”, descreve.


“As ONGs que mantêm os campos dão apoio básico e imediato. Não há, contudo, programa de inserção”, comenta. São centenas de tendas e pessoas longe de suas casas, cidades e, muitas vezes, famílias. “Alguns tinham esperança de retornar para suas cidades. Outros diziam que estavam lá há tanto tempo que não tinham porque voltar”, relata.

 

Jéssica Paula publicou livro-reportagem produzido para TCC da Faculdade de Jornalismo. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB


SUDÃO – De Asosa (Etiópia), Jéssica Paula seguiu para o Sudão. Chegou à região do Nilo Azul. Lá, conheceu de perto a relação conflituosa entre os sudaneses e os antigos compatriotas, os sul-sudaneses. “Os sudaneses se consideram superiores. O Sudão é mais desenvolvido do que o Sudão do Sul, que é bastante pobre e comunga religião cristã”, explica. A dimensão da pobreza do Sudão do Sul surpreendeu Jéssica Paula. “Quando cheguei lá, descobri que não havia energia elétrica no país, nem água encanada, saneamento básico”, lembra.


“No Sudão do Sul, encontrei ex-crianças-soldado e minha visão sobre elas mudou. Achamos um absurdo, mas, naquela situação, o melhor é ser uma criança-soldado, porque elas têm acesso à escola, comida. É um mecanismo de sobrevivência. Estar na milícia é estar com o poder. É estar na elite”, afirma.


Em sequência, a estudante partiu para Uganda. “Passei a entrar na rota do Koni”, conta. Joseph Koni está na lista de procurados pela Corte Penal Internacional. Considerado criminoso de guerra, comanda a Lord's Resistance Army (LRA), uma guerrilha que percorre Uganda e é formada, em boa parte, por crianças sequestradas e transformadas em crianças-soldado. Nessa busca, a autora entrevistou uma enfermeira que trabalhou com Koni por anos.


“Para eles, a vida é o que conhecem ali. Não há noção de que as coisas podem ser melhores, porque não conhecem outras realidades”, avalia.


DEFICIÊNCIA – Apesar da deficiência física que a acometeu ainda na infância e que exige o uso de muletas para caminhar, Jéssica Paula encarou com tranquilidade o desafio de viajar sozinha para áreas abaladas por anos de guerra civil e ações de milícias. “Havia um vazio e a necessidade de preenchê-lo. Isso veio muito da minha deficiência física. Adoro viajar. Precisava de um lugar e de uma boa desculpa”, comenta.


“A África me ajudou muito com minha deficiência. Você percebe que existem problemas maiores. O problema vai sempre existir, a questão é como você o enxerga”, elabora. “Quero voltar a fazer um livro como este, contar histórias em reportagem com impacto atemporal”, completa.


A jornalista usa a experiência do livro-reportagem para proferir palestras motivacionais. A proposta é elaborar formas de usar os problemas a favor da pessoa. “É um método de como transformar os problemas em oportunidades”, encerra.


IMIGRANTES NO BRASIL – Desde 2014, o Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre a Américas (CEPPAC-UnB) estabelece parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Conselho Nacional de Imigração (CNIg). O resultado do acordo é o Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), coordenado por Leonardo Cavalcanti, que integra o CEPPAC. O OBMigra analisa os registros administrativos que as empresas repassam para o MTE. O objetivo é identificar e fazer um panorama geográfico de migração no Brasil. “Antes, só tínhamos o Censo, que ocorre de dez em dez anos”, comenta Cavalcanti.


De 2011 a 2014, segundo dados fornecidos pelo OBMigra, 43 sudaneses tiveram a entrada registrada no Brasil pelo Sistema Nacional de Cadastramento de Estrangeiros (SINCRE) do Departamento de Polícia Federal do Ministério da Justiça.


POLÍTICAS PÚBLICAS  Com os dados levantados pelo Observatório, é possível analisar o cenário de nicho de trabalho no Brasil. “Observamos que a maior parte dos imigrantes está no Brasil meridional (São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), em que há concentração de setores da fase final da cadeia produtiva do agronegócio, como abate de aves e de suínos”, constata Cavalcanti.


A partir daí, é possível planificar e formular políticas públicas com o fito de promover apoio à integração do imigrante. “Sabendo onde reside, trabalha, quanto recebe, é possível elaborar políticas para sanar o problema de idioma, para promover a reunião de familiares e a inserção em escolas”, explica o professor do CEPPAC.


Segundo Cavalcanti, a maior parte dos estrangeiros que habitam o Brasil se insere no grupo de imigrantes econômicos, que se mudam para outro país com o objetivo de conseguir ascensão social vertical, ou seja, de melhorar a qualidade de vida por meio do trabalho. Outros motivos que levam à imigração também são questões afetivas e perspectivas de vida.


Dados do OBMigra indicam que, desde 2010, os haitianos configuram a maior população de imigrantes no mercado de trabalho brasileiro. A justificativa é o terremoto que assolou o Haiti há seis anos. “Àquela época, o Brasil era país de atração. Estava com economia em alta, a construção civil estava em crescimento, e, em razão dos grandes eventos que o país viria a sediar, havia grande demanda por força de trabalho”, diz. “Este ano, vemos essa tendência se invertendo.”


O imigrante econômico, em termos gerais, é uma pessoa adulta, entre 25 a 40 anos, com educação formal. Leva capital econômico ou social ao país para o qual migra. Tem formação média e superior e, quando envelhece, costuma retornar para o país de origem. “São pessoas jovens que vêm para trabalhar. Pessoas com grande mobilidade geográfica, desapegadas e adaptáveis. Não demandam tratamento especial, ou complexo, e nem querem caridade. São interessantes para o Brasil”, completa Cavalcanti.