Pesquisa revela que homens cotistas e não cotistas que estudam na instituição têm melhor desempenho no mercado de trabalho. No geral, resultados são negativos para mulheres

 

No campus Darcy Ribeiro, estudantes da Universidade de Brasília posam para campanha institucional UnB Mais Humana. Foto: Beto Monteiro / Secom UnB

 

Aumento nos ganhos salariais, em anos de educação e em chances de concluir a graduação. Esses foram os principais ganhos para homens que entraram na Universidade de Brasília pelo sistema de cotas raciais. É o que revela pesquisa realizada pela professora da UnB Maria Eduarda Tannuri-Pianto, em coautoria com o docente Andrew Francis-Tan, da Universidade Nacional de Singapura.

 

O objetivo do estudo foi analisar o impacto no mercado de trabalho de se frequentar uma instituição de prestígio, no caso, a Universidade de Brasília. A análise também observou como é esse desempenho em relação aos alunos que entraram pelo sistema de cotas raciais da UnB, implementado na instituição em 2004.

 

Para medir esse impacto, os pesquisadores levantaram dados sobre aprovados e não aprovados, cotistas e não cotistas, em três vestibulares da UnB (2004/2; 2005/1 e 2005/2). Foram considerados aqueles, ingressantes ou não, que ficaram em faixa próxima à nota de corte, ou seja, perto do desempenho mínimo do respectivo curso/semestre/sistema para se conquistar uma vaga na Universidade. A metodologia aplicada é conhecida no meio científico pela expressão regressão por descontinuidade.

 

O próximo passo foi buscar e cruzar informações sobre a colocação dessas pessoas no mercado, anos mais tarde. A opção foi localizá-las, por meio do CPF ou por um algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores, na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), no período de 2009 a 2012. O documento do Ministério do Trabalho é um registro sobre a situação de todos os empregados formais do país.

 

“Neste caso, observamos, por exemplo, se as pessoas que ficaram acima do ponto de corte tinham mais anos de estudos do que as que ficaram abaixo desta nota; se o número de formandos entre os ingressantes era maior em relação aos não aprovados; quais perfis ocupavam mais cargos de diretor ou gerente; quais pessoas estavam empregadas no setor público; quantas horas elas trabalham; qual o rendimento delas”, explica a professora.

Autora da pesquisa, Maria Eduarda Tannuri-Pianto é professora da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Gestão de Políticas Públicas (Face). Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

 

RESULTADOS – Considerando ambos os sexos, a pesquisa revelou que os alunos cotistas que ingressaram na UnB são 11 pontos percentuais mais propensos a concluir o ensino superior em comparação aos candidatos cotistas que não entraram na instituição.

 

Se a diferença nos ganhos salariais não se revelou significativa para esse público, frequentar a UnB aumentou em sete pontos percentuais a probabilidade de os cotistas alcançarem posições de direção e gerência no setor formal. Já para candidatos não cotistas, estar na Universidade significa maior probabilidade de emprego formal, assim como aumento em mais de 12% nos ganhos trabalhistas.

 

No entanto, a estratificação por gênero mostra distinções relevantes entre masculino e feminino. Os homens não cotistas que frequentam a Universidade de Brasília têm cerca de 0,03 ano a mais de educação e são três pontos percentuais mais propensos a concluir a faculdade. Por sua vez, homens cotistas que frequentam a UnB têm 0,77 ano a mais de educação e a chance de terminar o ensino superior aumentada em 17 pontos percentuais. Em relação às mulheres, não cotistas que frequentam a UnB ganham seis pontos percentuais em probabilidade de concluir a faculdade.

 

Frequentar a Universidade de Brasília representa, ainda, para todos os homens, aumento na probabilidade de trabalhar no setor formal e crescimento nos retornos monetários. Os candidatos não cotistas alcançam 20% a mais nos ganhos salariais, em relação aos que não ingressaram na instituição. No caso dos cotistas, a diferença é 42% maior. Nesta relação, não há contraste significativo para as mulheres.

 

O ingresso na UnB também não traz melhora significativa nos resultados educacionais das mulheres. Em análise global, as cotistas e não cotistas que ingressaram na UnB têm coeficientes negativos em relação aos anos de educação, à conclusão da faculdade e ao mercado de trabalho. Em muitos casos, os dados indicam que entrar na instituição é fator moderado ou severamente negativo para esse público.

 

Para Tannuri-Pianto, a diferença de desempenho percebida pelo recorte de gênero é um ponto de interrogação deixado pela pesquisa. “Na Índia, temos dados que mostram que as pessoas que entram na universidade para cursos de Engenharia pelo sistema de cotas estão em desvantagem no mercado de trabalho em relação às que não entraram. É o que chamamos de mismatch. No Brasil, encontramos isso para as mulheres. O estudo mostra que cotistas e não cotistas estariam ganhando mais, por exemplo, se não estivessem na UnB.”

 

Os dados, na visão da professora, indicam uma tendência, mas o estudo precisaria ser refeito, com base em outros anos, para verificar possíveis regularidades. “Podemos pensar que são mulheres jovens, que estão tendo filhos, casando, que adiaram sua entrada no mercado, que ficaram fora das atividades por algum tempo. Ou ainda supor que, a curto prazo, o efeito da experiência de mercado tenha mais impacto que o efeito da formação educacional. Mas esse último aspecto poderia se aplicar aos homens também, fato que não ocorre. Então, é uma questão a ser investigada”, comenta Tannuri-Pianto.

Docente na Universidade Nacional de Singapura, Andrew Francis-Tan desenvolve pesquisas relacionadas à UnB há mais de uma década. Foto: Divulgação

 

PARCERIA – O artigo Movimento Negro: usando descontinuidades nas admissões para estudar os efeitos da qualidade universitária e da ação afirmativa (tradução do original, em inglês) foi publicado em novembro pelo Journal of Development Economics, revista científica internacional de alto impacto na área de Economia. O texto é o quinto trabalho publicado pela professora Tannuri-Pianto em coautoria com Andrew Francis-Tan e faz parte de uma série de pesquisas dos autores sobre a política de cotas na Universidade de Brasília. Em outros estudos, eles trazem reflexões sobre identificação racial e sobre o desempenho dos cotistas.

 

“Em 2005, eu estava estudando para o meu PhD na Universidade de Chicago quando li um artigo do The New York Times sobre as cotas raciais na UnB. Fiquei imediatamente fascinado! Coincidia com meus interesses sobre política educacional, desigualdade e raça. Eu não conhecia a professora Maria Eduarda na época, mas enviei um e-mail a ela e nossa frutífera colaboração começou”, conta Andrew Francis-Tan. 

 

Uma parceria que trouxe “resultados interessantes”, completa Tannuri-Pianto. Entre eles, a descoberta que, depois das políticas de cotas, os brasileiros que ingressaram na UnB pela ação afirmativa mantiveram sua identificação racial. “O mesmo fato não ocorre em outros países, nos quais as pessoas se identificam de uma forma em relação à raça quando entram para a faculdade e depois, no mercado de trabalho, mudam sua autoclassificação. Notamos, portanto, que essas políticas trouxeram consciência maior sobre raça”, pontua a docente da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Gestão de Políticas Públicas (Face).

 

Com base em suas pesquisas, Francis-Tan avalia as cotas raciais na UnB como positivas. “A política aumentou o percentual de estudantes negros e esses alunos tendem a vir de famílias com nível socioeconômico mais baixo do que os não negros. Apesar dos padrões de admissão mais baixos para estudantes de cotas, o desempenho acadêmico deles é bom, em média. E a presença na UnB aumentou significativamente os ganhos monetários dos estudantes do sexo masculino."

 

O pesquisador da Universidade de Singapura cita que, em países como África do Sul, China, Israel e Índia, existem políticas análogas, voltadas para a redução da desigualdade educacional entre grupos sociais. “A pesquisa que fizemos mostra que ações desta natureza podem ajudar pessoas que pertencem a grupos historicamente desfavorecidos.” A professora Tannuri-Pianto compartilha da ideia. “Para além do acesso mais equânime, há o que chamamos de efeito espelho e referência. Ter uma pessoa formada na família, sem dúvida, é um modelo para outros.”

 

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