Estudo da UnB aponta ação direta da substância na morte de células cancerosas. Achados repercutem em prestigiada revista internacional

Revista CDD

 

Uma das doenças ginecológicas mais letais do mundo pode vir a ser combatida com o uso do ácido graxo ômega-3 do tipo DHA (ácido docosahexaenoico). Resultados iniciais de estudo desenvolvido no Laboratório de Imunologia e Inflamação do Departamento de Biologia Celular (Limi/CEL/IB), ligado ao Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília, apontam para a capacidade da substância de induzir a morte das células de câncer de ovário. A descoberta ocorreu em análise de culturas de células in vitro e ganhou projeção internacional com a divulgação, em janeiro, na revista Cell Death Discovery (CDD), da editora germano-britânica Springer Nature.


O estudo revela que o ômega-3 DHA induz a piroptose, uma espécie de morte inflamatória e programada da célula de câncer. Ao contrário de outros processos silenciosos, a piroptose é caracterizada pela ruptura da membrana celular, o que estimula o sistema imunológico a atacar o tumor. Esse processo tem início com a deterioração das mitocôndrias, principal componente de produção de energia das células, e o comprometimento da respiração celular. A ação se mostrou seletiva, não atingindo tecidos saudáveis.

 

>> Confira o artigo na íntegra

 

Os efeitos observados ocorrem porque o ômega-3 DHA promove o aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS, na sigla em inglês), moléculas que, em excesso, causam estresse oxidativo nas células. Esse volume aumentado de ROS ativa uma enzima chamada caspase-1, que é determinante para o processo inflamatório e a consequente morte da célula do câncer de ovário.

Gabriel Pasquarelli enxerga potencial uso estratégico do ômega-3 no combate a tumores. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB 

 

“Quando incorporado por uma célula de câncer, o DHA, que é facilmente oxidado, exacerba o estresse oxidativo nesta célula, favorecendo diversos efeitos danosos que não ocorrem em células saudáveis”, explica o pesquisador em estágio pós-doutoral e primeiro autor do artigo na CDD, Gabriel Pasquarelli. “Devido à presença de ligações duplas em sua estrutura, o ômega-3 DHA é mais suscetível à oxidação quando comparado a ácidos gordos, que não apresentam essa característica”, afirma ele, ao ressaltar que o Limi também estuda a ação de outras gorduras sobre células de câncer.

 

De acordo com o Pasquarelli, a morte e o impedimento da proliferação de células danosas “sugerem que o DHA tem potencial para ser explorado como adjuvante na terapia de tumores ovarianos, auxiliando no tratamento da doença”. Os trabalhos seguem com a utilização de camundongos e observam a ação do ômega-3 DHA contra outros males. “Estamos avaliando em detalhes os efeitos do DHA no organismo como um todo”, diz o cientista, que vê a substância como possível “parceira estratégica que ajuda a quimioterapia e a imunoterapia a serem mais eficazes no combate aos tumores”. 

 

Supervisora do estudo e coordenadora do Limi, a professora Kelly Grace Magalhães diz que a pesquisa inova “ao descrever de forma mecanística a indução de piroptose mediada por DHA, estabelecendo uma conexão direta entre estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e ativação de caspase-1”. “Embora o ômega-3 já tenha sido investigado em outros contextos oncológicos, demonstrar essa via específica de morte celular inflamatória nesse tipo tumoral amplia de maneira relevante o entendimento da biologia do câncer de ovário”, completa.

Imagens microscópicas mostram piroptose provocada pelo ômega-3 em período de 24h. Quanto mais pontos em vermelho, mais mortes de células cancerosas são observadas. A primeira linha traz células não estimuladas com o DHA. Nas outras duas, há a aplicação gradual da substância. Imagem: Limi/UnB


“Mesmo conduzido em modelo celular in vitro, o estudo traz esperança ao revelar uma vulnerabilidade metabólica e inflamatória das células do câncer de ovário que pode futuramente ser explorada como estratégia terapêutica complementar, especialmente em um tumor caracterizado por alta taxa de recorrência e resistência aos tratamentos convencionais”, avalia a pesquisadora, que é autora correspondente do artigo na Springer Nature.


RISCO SILENCIOSO – O artigo reporta o câncer de ovário como a segunda neoplasia ginecológica que mais causa mortes no mundo. A doença é inicialmente assintomática, o que dificulta o diagnóstico precoce. Cerca de 70% das mulheres acometidas tomam conhecimento com o câncer já em graus III ou IV, estágios de difícil tratamento. Além de predisposição genética, os fatores de risco da doença incluem a endometriose, a obesidade e a idade.


Outro fator mencionado é a taxa de recorrência elevada mesmo após cirurgias e quimioterapia, o que contribui para a mortalidade associada à doença. “Compreender a incidência global de câncer de ovário é essencial para reconhecer o desafio substancial que apresenta aos sistemas de saúde pública. Esses fatos destacam a urgência de investigar meios de atenuar o impacto devastador do câncer de ovário”, aponta a publicação.


PROTAGONISMO DA UnB – O potencial do ômega-3 DHA para auxiliar o tratamento dessa e de outras doenças, incluindo o câncer de mama, segue como alvo de pesquisas na Universidade de Brasília. Também em janeiro, pesquisadores do Limi publicaram artigo com resultados promissores sobre a aplicação da substância como protetora em infecções cerebrais causadas pelo vírus Zika.


“Esse destaque amplia a visibilidade da UnB no cenário científico global, fortalece a reputação institucional na área de biomedicina e oncologia e abre novas possibilidades de colaboração e captação de recursos”, avalia Kelly. Este é um exemplo do impacto da ciência produzida na UnB em prol das mulheres, como preconiza a campanha do #8M 2026.

 

A professora ressalta que os resultados obtidos são fruto de trabalho árduo. A pesquisa sobre câncer de ovário, por exemplo, foi iniciada ainda no mestrado de Gabriel Pasquarelli, há oito anos. “Trata-se de um projeto que envolveu vários anos de experimentação, validação científica e amadurecimento intelectual, até culminar na publicação”, afirma. 

Pesquisa foi iniciada há oito anos e resulta de sólida parceira acadêmica entre Gabriel e Kelly. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

 

Egresso da primeira turma de graduação em Biotecnologia da UnB, Pasquarelli é mestre em Biologia Molecular e doutor em Patologia Molecular pela Universidade. O último título foi obtido em formação sanduíche com a Universidade de Harvard.

 

Em toda a carreira, teve orientação de Kelly. “Sou muito grato por poder contribuir com esta importante pesquisa para a ciência brasileira e para a Universidade de Brasília”, diz ele, que afirma ter escolhido o caminho da ciência “para poder ajudar as pessoas, especialmente as que enfrentam câncer".

 

A pesquisa que originou a publicação internacional recebe financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).


O artigo publicado pela Springer Nature também é assinado por outros 13 pesquisadores vinculados à UnB. Na sequência original, são eles: Sarah Bezerra, Júlia Manchine, Nathalia Lago, Heloísa Braz-de-Melo, Nathalia Cruz, Paula Bellozi, Amanda Rocha, Igor Santos, Fernanda Lago, Sabrina Machado, André Nicola, Andreza Fabro e Sônia Nair Báo.

ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.