Estudo clínico do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas foi publicado em renomada revista científica internacional

Marco Gomes/Creative Commons

 

Tem chamado a atenção uma pesquisa inovadora, desenvolvida por Andrea Gallassi, professora da Faculdade UnB Ceilândia (FCE) e coordenadora do Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR-UnB/FCE). Isso porque o estudo revela os benefícios do canabidiol (CBD) no tratamento de dependentes de crack. 

 

A pesquisa foi publicada na revista científica International Journal of Mental Health and Addiction, em abril. “O artigo ser publicado em uma revista científica internacional de grande impacto, dentro da melhor classificação de periódicos do mundo, quer dizer que o estudo foi avaliado com o mais alto critério de qualidade”, afirma Andrea.

 

A pesquisadora conta que a ideia é antiga e surgiu da observação. “Já faz bastante tempo que as produções científicas relatam esse uso intencional da cannabis para diminuir os efeitos desagradáveis da falta do crack, e foi aí que iniciamos”, explica.

Professora da Faculdade UnB Ceilândia (FCE), Andrea Galassi também coordena o Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas (CRR). Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

 

O estudo foi o primeiro a receber autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para importar canabidiol para fins de pesquisa científica e recebeu financiamento da Fundação de Apoio a Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), para ser concluído com êxito.

 

PESQUISA – A coleta de dados iniciou em agosto de 2019 e teve uma pausa em março de 2020, por conta da pandemia de covid-19. Em julho de 2021, foi retomada e finalizada em maio de 2022.

 

Durante dez semanas de estudo, os participantes compareceram semanalmente para receber um kit de medicação, preencher questionários sobre o uso de drogas, participar de sessões com uma equipe psicossocial e consultar um médico. Também realizaram testes toxicológicos, com resultados analisados pelo Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal.

 

O ensaio clínico iniciou com 90 participantes que atenderam aos critérios de elegibilidade: ser maior de 18 anos e ter dependência de crack, avaliada pela equipe. Destes, 17 foram excluídos por não retornarem, e os outros 73 participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos, 37 no grupo de controle e 36 no CBD.

 

O primeiro grupo recebeu o tratamento convencional com fluoxetina, ácido valpróico e clonazepam. Enquanto no outro foi administrado o CBD, isento de tetrahidrocanabinol (THC), substância psicoativa.

 

Para garantir a imparcialidade dos resultados, o estudo foi duplo-cego. Assim, os participantes não tinham conhecimento do que estavam recebendo, tampouco sabiam os profissionais que realizavam as intervenções.

 

Para isso, os medicamentos eram envasados em frascos idênticos e identificados com letras e somente o farmacêutico e a coordenadora da pesquisa sabiam quais lotes eram dos medicamentos do grupo CBD e quais eram do grupo controle.

 

“Os participantes foram alocados de forma aleatória por meio de sorteio, para que não soubessem em que grupo estavam. O grupo canabidiol recebeu, além do óleo de CBD, três medicamentos placebos, e o grupo controle recebeu os três medicamentos com princípio ativo e um óleo placebo”, esclarece a coordenadora.

 

ACHADOS – O resultado foi surpreendente: o grupo tratado com CBD apresentou redução significativa na compulsão pelo uso de crack, melhorias na saúde física e mental, além de menor incidência de reações adversas.


“O grupo controle teve resultados positivos mas, em comparação, o grupo canabidiol teve resultados positivos em mais parâmetros”, reforça a pesquisadora. De modo geral, a cientista aponta que o uso do canabidiol ajudou a reduzir os sintomas relatados pelos participantes, como falta de apetite, dificuldade em diminuir o uso de crack e sensação de saúde debilitada.

 

“As principais implicações deste estudo apontam para o CBD como uma ferramenta terapêutica poderosa e promissora para pessoas com dependência de crack, exatamente por atenuar esses sintomas”, comenta a coordenadora.

 

Ela destaca outro aspecto. A pesquisa foi realizada fora do ambiente hospitalar tradicional, refletindo as condições reais de vida dos dependentes de crack. Isso proporcionou uma abordagem mais próxima da prática de tratamento adotada nos serviços comunitários de saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ad Álcool e Drogas.

 

Para o futuro, Andrea explica que os estudos devem aumentar o tamanho da amostra e as estratégias de adesão, como triagem e monitoramento mais rigorosos dos participantes, divulgação ampla das informações do estudo e adoção de estratégias específicas para recrutar participantes do sexo feminino.

 

“Devemos ampliar para a casa de umas 200 pessoas, em colaboração com outro centro de pesquisa, com o mesmo desenho de estudo. Isso será importante para determinar se os benefícios observados neste estudo são mantidos ou até mesmo aprimorados”, relata Andrea.

 

Segundo ela, ainda há muita resistência ao uso de canabidiol por parte da sociedade, ainda assim, o tema está sendo cada vez mais discutido e disseminado. “Com mais evidências científicas, podemos pleitear que o uso do CDB possa ser indicado dentro dos medicamentos da lista do SUS [Sistema Único de Saúde]. É uma vantagem importante ser uma substância que gera menos efeitos colaterais, além de ser apenas uma medicação e, não, três', explica. 

 

Outra vantagem, de acordo com a professora, é a possibilidade de produção nacional, o que faria do CBD uma opção de baixo custo para os cofres públicos. 

 

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