Pesquisa debate conceitos de "isolamento" e "contato" e realça importância da garantia dos direitos territoriais destas populações

Jackson Tebu Amondawa

 

Uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAS/UnB) defende outra abordagem para a noção de "povo indígena isolado" ao analisar as dinâmicas de isolamento dos Kagwahiva, coletivos indígenas de língua tupi-guarani atualmente habitantes da bacia do rio Roosevelt. A região compreende os estados de Amazonas (AM), Mato Grosso (MT) e Rondônia (RO). 

 

A pesquisa A recusa do olhar: tramas do isolamento kagwahiva no rio da Dúvida foi vencedora do Concurso da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) de Teses e Dissertações 2025. Defendido em 2024, o estudo foi desenvolvido por Guilherme Augusto Gomes Martins, sob orientação do docente Luis Abraham Cayón Durán, do Departamento de Antropologia, no Instituto de Ciências Sociais (DAN/ICS/UnB).

 

O trabalho faz uma apresentação geral sobre a noção de "povo indígena isolado" e as ferramentas metodológicas adequadas para analisá-los. Além disso, oferece um panorama da história territorial e social dos diferentes grupos falantes de tupi-kawahib, estabelecendo novas conexões sobre suas trajetórias e esclarecendo aspectos dos grupos que ainda permanecem isolados.

O antropólogo Guilherme Martins é autor da dissertação vencedora do Concurso da Anpocs de Teses e Dissertações 2025. Foto: Arquivo pessoal

 

A partir do estudo de caso dos Piripkura, coletivo Kagwahiva que se encontra dividido entre indivíduos isolados e em condição de contato inicial, o trabalho analisa a articulação entre isolamento e parentesco amazônico. Em seguida, as concepções clássicas sobre “isolamento” e “contato” são revisitadas, sob o argumento de que tais categorias devem ser melhor apreendidas a partir da própria agência da relacionalidade indígena, ultrapassando perspectivas coloniais.

 

Guilherme Martins elenca o diálogo estabelecido com os Piripkura como um dos principais achados da dissertação. "Esse diálogo resultou na descoberta de novos aspectos da cultura e da história dos Piripkura, que espero que contribuam para a garantia de seus direitos territoriais – mesmo passados mais de 40 anos da confirmação da existência dos Piripkura, seu território ainda não foi demarcado. Esse é, sem dúvida, o aspecto mais importante da dissertação."

 

A defesa do pesquisador se conecta com o que propõe o Dia Internacional dos Povos Indígenas, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) e celebrada neste domingo (9) para valorização às tradições e reafirmação dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo.

 

CONTATO x ISOLAMENTO – Devido ao isolamento do povo Piripkura, para a construção do diálogo foi preciso reelaborar diversas abordagens clássicas da antropologia, já que não seria possível realizar uma etnografia stricto sensu – ou seja, uma imersão, por contato intenso, no cotidiano e na cultura desta população.

 

Martins conta que, para além do trabalho de campo e da observação participante realizada junto aos dois únicos Piripkura de contato inicial localizados, "foi preciso empreender também uma etnografia da memória do grupo, além de estudos linguísticos, arqueológicos e etno-históricos".

 

"Esse conjunto articulado de abordagens no envolvimento junto aos Piripkura acabou desencadeando novas reflexões teóricas e metodológicas para a temática dos povos indígenas isolados no geral – um campo de pesquisa que, embora venha crescendo nos últimos anos, ainda é pouco explorado dentro da etnologia indígena", observa.

 

Martins reforça que o termo "isolamento", de uso corrente para se referir ao fenômeno particular de recusa de relacionalidade por parte de povos originários, não é adequado do ponto de vista antropológico. "Os povos ditos 'isolados' não vivem em uma bolha totalmente apartada da sociedade envolvente", observa.

Guilherme Martins ao lado de Rita Piripkura e Aripã Karipuna, na Terra Indígena Piripkura (MT). Foto: Ana Suely Cabral

 

"Longe de ignorarem a existência de outras sociedades, esses povos apenas recusam interações substanciais com elas. Suas próprias práticas de isolamento envolvem uma série de comunicações indiretas com seus vizinhos: tapagens, armadilhas, sinais sonoros e outros vestígios intencionalmente deixados na floresta, que fazem parte de um repertório por meio do qual esses povos procuram exprimir ativamente sua autodeterminação. O isolamento, portanto, não é a ausência total de relação com o outro, mas, sim, uma modalidade específica dessa relação."

 

O que se chama de "isolamento", explica o antropólogo, é uma postura adotada por determinados povos indígenas para evitar ao máximo as interações com pessoas externas ao seu próprio grupo. "Essa postura tem como objetivo resguardar o grupo dos impactos negativos causados pelas relações com estranhos – principalmente com não indígenas. Na maioria dos casos, o isolamento ocorre como resposta a experiências traumáticas vivenciadas no passado em razão da violência colonial", explica.

 

TERMOS, IDEIAS E CONCEITOS – A dissertação se aprofunda ainda mais sobre as perspectivas de "isolamento" e "contato". Guilherme Martins explica que essas ideias têm origem em categorias administrativas, utilizadas pelo Estado para operar políticas públicas. "A máquina colonial estatal precisa separar os indígenas em 'isolados' e 'contatados', pois o Estado opera de maneira distinta com povos originários de acordo com a disponibilidade – ou recusa – destes em se relacionar com os mecanismos estatais."

 

Em outras palavras, o antropólogo explica que, "em geral, essa separação tem como critério definidor o Estado, colocando os indígenas como sujeitos passivos: são considerados isolados ou contatados em relação à sociedade dominante".

 

"O problema é que essa separação entre 'isolamento' e 'contato' não parece ser tão rígida e irreversível do ponto de vista indígena. Essa dicotomia parte de uma oposição demasiadamente discreta, que não dá conta dos modos indígenas de ser e da relacionalidade concêntrica, extensiva, pendular e contínua de suas sociocosmologias", pondera.

 

Guilherme esclarece que essa dicotomia entre "isolados" e "contatados", na verdade, vem de uma mitologia ocidental: a ideia de que o Estado seria, por natureza, anterior à história. "Tal mitologia colonial se desdobra tanto na etnologia quanto no indigenismo. É preciso, portanto, investir na compreensão do fenômeno do isolamento a partir das próprias concepções indígenas, a fim de superar tais limitações, sem, contudo, perder de vista o imperativo de formular políticas concretas para a proteção dessas populações."

 

PRÊMIO – Martins destaca o apoio e a orientação que teve do PPGAS, além da "leitura generosa da Anpocs", como impactantes para o reconhecimento da dissertação.

 

"É uma grande honra receber essa premiação em meio a tantas outras excelentes dissertações em ciências sociais. Acima de tudo, fico feliz em acreditar que a premiação possa ajudar de alguma forma o povo Piripkura, em especial na luta pela demarcação de seu território", diz.

 

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