Desenvolvido junto a comunidades e com apoio do IEB e do Iphan, estudo contribui para valorizar saberes tradicionais sobre plantas medicinais

Reprodução do Dossiê/Sílvia Guimarães

 

O Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou, em junho deste ano, o registro do ofício de raizeiras e raizeiros do Cerrado no Livro dos Saberes, designando a prática como Patrimônio Cultural do Brasil. A publicação inscreve os bens imateriais relacionados a conhecimentos e modos de fazer desenvolvidos no dia a dia das comunidades.

 

O reconhecimento concedido pelo Iphan valoriza práticas ancestrais, presentes em diferentes territórios e estados brasileiros, relacionadas ao uso de plantas medicinais, ao cuidado comunitário e à preservação do Cerrado. A exemplo da produção de chás, xaropes e pomadas a partir de espécies nativas do bioma.

 

A UnB contribuiu ativamente com o processo por meio de pesquisa que resultou no dossiê de registro do ofício de raizeiras e raizeiros do Cerrado. O estudo foi coordenado pela professora Sílvia Guimarães, do Departamento de Antropologia (DAN) e do Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (Mespt).

 

A Articulação Pacari, uma rede de organizações comunitárias e pessoas que atuam com plantas medicinais do Cerrado, deu início ao trâmite como proponente do processo de registro no Iphan em 2009. O instituto, por sua vez, procurou a equipe da UnB para desenvolver a pesquisa que embasaria o pedido e financiou o projeto. Entre a formalização do pedido e a articulação para a pesquisa, houve um salto temporal de pouco mais de uma década.

 

Desta iniciativa, resulta um acordo de cooperação técnica com o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e do Decanato de Extensão da UnB, para desenvolvimento do estudo.

 

“A participação da UnB foi muito intensa, com professores, estudantes de graduação e de pós-graduação que auxiliaram em todo o processo”, explica Silvia.

 

“Nós já trabalhávamos com a temática no Laboratório Matula, quando fomos consultados pelo Iphan para coordenar o estudo. Daí, ampliamos a rede para dar conta, o máximo possível, da pesquisa no bioma Cerrado”, salienta.

 

Ligado ao Departamento de Antropologia, o Matula desenvolve pesquisas interdisciplinares sobre fluxos culturais e sociais, pensando diferenças e desigualdades na perspectiva de gênero, raça, etnia e classe, além de propostas interventivas e com envolvimento de interlocutores para além da academia.

Farmacinha de Dona Maria dos Remédios, no Morro do Pilar (MG). Imagem: Reprodução do Dossiê/Sílvia Guimarães

 

PESQUISA –  Iniciado em 2023, o estudo contou com a participação de representantes das comunidades tradicionais, que atuaram como pesquisadores comunitários lado a lado aos pesquisadores da Universidade, em uma rede de construção coletiva.

 

“Conseguimos reunir vários pesquisadores comunitários que desenvolveram a pesquisa conosco em diferentes locais e foram fundamentais para definir os caminhos da investigação e trazer as questões que eram politicamente importantes para as raizeiras”, comenta Sílvia Guimarães. 

 

A base metodológica envolveu etnografia, entrevistas, rodas de conversa, oficinas e atividades de campo em comunidades quilombolas, indígenas, assentamentos rurais e áreas urbanas e periurbanas do Cerrado. A equipe ainda incorporou práticas desenvolvidas pelas próprias comunidades, como as chamadas caminhadas experienciadas, momentos em que o conhecimento é transmitido diretamente no território pela caminhada e por observação, modos de coleta e de manejo das plantas.

 

“Entramos num universo de técnicas de pesquisa desenhadas por essas raizeiras e esses raizeiros pesquisadores, fazendo um encontro de ciências acadêmica e tradicional, o que foi muito inovador para a construção da pesquisa”, revela a pesquisadora. Para ela, “esse diálogo interepistêmico produziu conhecimento científico, mas também fortaleceu ações de extensão e de troca de saberes na Universidade”.

 

PATRIMÔNIO – O parecer técnico do pedido de registro reconhece que o processo foi “subsidiado por amplo conjunto documental, técnico, audiovisual e comunitário”. O reconhecimento abre caminho para ações de salvaguarda, políticas de proteção do patrimônio cultural e iniciativas voltadas à preservação do patrimônio ligado às plantas medicinais.

 

Para a coordenadora-geral de Identificação e Registro do Departamento de Patrimônio Imaterial do Iphan, Diana Dianovsky, a iniciativa reforça a importância desses saberes para a formação cultural do país. “O ofício atende aos três critérios para um bem cultural e material ser registrado: relevância nacional, continuidade histórica e referência cultural”, afirma. 

Iphan aprovou o registro do ofício de raizeiras e raizeiros do Cerrado no Livro dos Saberes, em junho. Foto: Arquivo pessoal/Sílvia Guimarães

 

Diana diz ainda que esses conhecimentos tradicionais têm valor imensurável para compreendermos quem somos como povo. “É uma prática muito antiga, enraizada nos povos e nas comunidades tradicionais, e isso foi considerado para esse reconhecimento, além da articulação entre pessoas, territórios, ambiente e saberes”, comenta a coordenadora.

 

Para Lucely Pio, raizeira do Quilombo Cedro, em Mineiros (GO), e integrante da Articulação Pacari, a conquista fortalece tanto os guardiões dos saberes tradicionais quanto a defesa do bioma. “O reconhecimento do ofício é um instrumento de fortalecimento para todo o Cerrado. É um caminho para pensarmos na proteção da medicina tradicional, dos saberes dos povos e comunidades tradicionais e da própria natureza”, salienta. 

 

Segundo Sílvia Guimarães, o passo também representa uma forma de reparação histórica para a comunidade de raizeiras e raizeiros que, durante séculos, enfrentaram a invisibilidade violenta e forçada e cuidaram das pessoas nas comunidades e do Cerrado, assim como o bioma cuida delas.

 

“Se o Cerrado acaba, ocorre um epistemicídio, porque desaparece todo um sistema de conhecimento construído ao longo de gerações. O registro é um ferramenta política para a proteção desses saberes e para que raizeiras e raizeiros participem dessas discussões sobre conservação e restauração do bioma”, observa.

 

ATENÇÃO – As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos. Crédito para textos: nome do repórter/Secom UnB ou Secom UnB. Crédito para fotos: nome do fotógrafo/Secom UnB.