Pesquisa da UnB mostra que práticas quilombolas contribuem para a agricultura familiar e previnem grandes incêndios

Nádia Malena/Rede Biota Cerrado

 

O fogo por si só não é vilão na conservação do Cerrado. Técnicas utilizadas por comunidades Kalunga, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, demonstram que a utilização consciente do fogo auxilia na produção agrícola familiar e é um obstáculo para a propagação de incêndios. Essa constatação faz parte dos achados de estudo conduzido por pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PGECL/IB) da UnB junto à Rede Biota Cerrado, e orientado pela docente do Instituto de Ciências Biológicas (IB/UnB) Isabel Schmidt. Os resultados foram publicados este semestre na revista científica Fire Ecology, distribuída pelo prestigiado grupo editorial Springer Nature.

 
>> Confira o artigo publicado na Fire Ecology


Quatro comunidades foram observadas e entrevistadas em estudo de caso qualitativo. As pesquisadoras compararam as informações e as impressões das comunidades com dados climáticos coletados por 44 anos. Os resultados mostram a organização de um mosaico dinâmico de roças de toco e áreas de pousio – descanso da terra – em meio a áreas de extensiva produção pecuária sobre vegetações nativas e pastagens plantadas. Essa alternância produzida pelos Kalunga evita a continuidade do combustível fino, como o capim, que ajuda a alastrar os incêndios.

 

Os Kalunga utilizam técnicas aprimoradas durante séculos. O manejo do fogo leva em conta as condições climáticas, a vegetação local, o período e a facilidade de monitoramento. Nas roças, o fogo é empregado para limpar áreas e nutrir o solo com as cinzas. Em áreas de vegetação nativa, a queima controlada busca impedir o acúmulo de capins secos e estimular a rebrota do capim que serve de comida para o gado.

Roça de toco em produção no Território Kalunga, no Cerrado goiano. Foto: Nádia Malena/Rede Biota Cerrado

 

“O fogo funciona como uma tecnologia de governança socioecológica, sustentando a produção e contribuindo ao mesmo tempo para a redução do risco de incêndios florestais através da fragmentação do combustível, das práticas de queima de baixa intensidade e do monitoramento comunitário”, aponta trecho do artigo publicado. Por essas características, a pesquisa conclui que políticas de restrição total ao uso do fogo devem ser substituídas por acordos que integrem o conhecimento ecológico tradicional aos critérios técnicos de governança do Cerrado.

 

“Trabalhos como este mostram a enorme sabedoria que as comunidades tradicionais detêm e que existem formas possíveis de conviver e viver em nossa região sem destruir o Cerrado, que é tão importante para produção de água para todo o país”, avalia a professora e pesquisadora Isabel Schmidt. Para ela, os resultados do estudo podem ajudar na implementação da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, instituída há dois anos, e na elaboração de políticas públicas estaduais e distritais sobre o tema.

 

As práticas ancestrais são, inclusive, consideradas na política nacional, que também propõe em suas diretrizes a gestão participativa com povos indígenas e comunidades quilombolas.

 

Schmidt destaca a atuação de grupos de pesquisa da Universidade de Brasília em colaboração com comunidades tradicionais e organizações ambientais. “São maneiras de aproximar a Universidade da sociedade e permitir que a ciência contribua diretamente para a valorização dos conhecimentos tradicionais, da gestão ambiental e da conservação da natureza”, afirma.

 

A pesquisadora também menciona a participação em estudo publicado em 2018, em que as práticas de manejo de fogo de comunidades quilombolas do Jalapão, no Tocantins, foram analisadas. Ela vê semelhanças nos processos de manejo do fogo com os do povo Kalunga, que conta com o apoio da brigada Prevfogo do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desde 2015.  

 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E GADO – As análises do clima apresentadas na Fire Ecology identificaram aumento de temperatura de 0,27 °C por década nos Territórios Kalunga. A alteração foi acompanhada da redução da umidade relativa do ar, da diminuição de chuvas, do aumento de ventos na estação seca e de ocorrência de temperaturas extremas. Os dados coincidem com a percepção dos agricultores, que precisam adequar práticas e enfrentam mais instabilidade para o manejo do fogo.

Ações de manejo contam com o apoio de brigadas do Ibama. Foto: Nádia Malena/Rede Biota Cerrado

 

A expansão de pastagens com espécies exóticas para raças de gado não adaptadas ao Cerrado é mais um fator externo de pressão ao manejo dos povos tradicionais. Segundo a pesquisa, o gado curraleiro, bem adaptado a pastagens nativas do Cerrado, tem sido substituído por raças zebuínas, como a Nelore, que têm mais demandas nutricionais, inclusive com impacto no consumo de água. Essas criações promovem a compactação do solo e a redução da diversidade de plantas nativas.

 

As transições na pecuária impactam diretamente as dinâmicas do fogo. “Interpretamos a redução de áreas úmidas e a crescente homogeneização de paisagens dominadas por capins exóticos como processos que podem potencializar a continuidade do combustível fino e elevar a vulnerabilidade socioambiental, particularmente no final da estação seca”, aponta o estudo.

 

SOBRE – Criada em 2011 e sediada na Universidade de Brasília, a Rede Biota Cerrado integra pesquisas voltadas à restauração, à conservação e ao manejo do bioma e oferece subsídio ao desenvolvimento de políticas públicas. Com mais de 140 pesquisadores de 43 instituições nacionais e internacionais, o grupo, hoje, possui cinco projetos associados e apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). As iniciativas envolvem temáticas como manejo integrado do fogo, mudanças climáticas, restauração ecológica, engajamento público com a ciência e a elaboração de inventários biológicos.

 

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