Com a gravação da voz de 30 brasilienses de segunda geração e instrumentos próprios para o estudo, projeto de iniciação científica tem achados preliminares sobre o dialeto dos “cidadãos do quadradinho”

Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília

 

Há quem diga que brasiliense não tem sotaque, visto que a jovem cidade, que completa 66 anos neste mês de abril, mistura o jeito de falar de migrantes dos quatro cantos do país, e também porque seu dialeto faz uso de sons mais neutros, que evitam traços muito marcantes como o do popular “R caipira”. Mas o que a ciência tem a dizer sobre isso: brasiliense tem ou não sotaque? 

 

“A questão de um possível sotaque brasiliense me interessa e eu sei que gera curiosidade também em muitas pessoas, principalmente os próprios brasilienses. É um assunto que as pessoas gostam de falar”, comenta o docente do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas, ligado ao Instituto de Letras (IL) da UnB, Ronaldo Lima. Ele investiga o assunto no projeto de iniciação científica Mapeamento fonético do sotaque brasiliense, desde setembro de 2024. 

 

A curiosidade do professor aumentou quando ele morou, por oito anos, no Ceará. “As pessoas notavam que eu tinha um sotaque que não era de lá. E eu, linguista, pesquisador curioso, perguntava: de onde você acha que é meu sotaque, então? A maioria dizia ‘de São Paulo’, outros ‘do Rio’, mas ninguém sabia dizer exatamente. E quando eu falava que era de Brasília, diziam: ‘ah tá, faz sentido’”, relembra o docente.

 

Ronaldo esclarece que, na área da Linguística, outros estudos sobre o tema estão em andamento, porém com uma lacuna no campo da fonética. “Há colegas pesquisando na parte da gramática, outros de vocabulário, mas o que me interessa é a parte dos sons, que ainda tem pouca pesquisa concluída”, menciona o pesquisador sobre a importância da iniciativa. 

Arquivo pessoal
As discentes Yasmin Jreige e Amanda Marques, o professor Ronaldo Lima e o discente Davi Moreira estão no segundo ano de pesquisas sobre o sotaque brasiliense. Foto: arquivo pessoal

 

METODOLOGIA – A primeira pergunta que o projeto buscou responder foi se existe ou não um sotaque brasiliense. A terminologia foi adotada em seu significado mais amplo, que abarca os moradores de Brasília e do Distrito Federal.  

 

“A maioria dos brasilienses ainda são de primeira geração, ou seja, filhos de pai e mãe vindos de outros lugares, como é meu caso. Mas agora já temos os brasilienses adultos de segunda geração, ou seja, filhos de cuidadores também nascidos na capital. Então já temos muito o que estudar”, detalha. 

 

E foi em agosto de 2024, com 30 brasilienses de segunda geração, com idade entre 18 anos e 40 anos, que o projeto teve início. 

 

Na primeira etapa, os voluntários preencheram um questionário sociolinguístico com questões como idade, seu grau de escolaridade e de seus pais ou cuidadores, regiões administrativas do Distrito Federal em que já residiu e por quanto tempo, origem dos pais e avós paternos, entre outras. 

 

Na etapa seguinte, compareceram ao Laboratório de Fonética e Fonologia do Instituto de Letras (Laffon/IL), onde tiveram suas vozes gravadas enquanto realizavam tarefas elaboradas na pesquisa para investigar a variação do dialeto.  

 

A primeira foi a leitura de 63 frases-guias, para as quais foram instruídos a ler da forma mais natural possível, mantendo sua cadência de fala. Cada frase-guia continha palavras com aspectos consonantais reveladores de sotaque regional, com ênfase no som de /R/ e /S/. 

 

“Em todas essas tarefas buscamos captar os sons que normalmente revelam sotaque no Brasil. A exemplo do (r), nas diferentes pronúncias de palavras como ‘porta’; do /S/, em palavras como ‘casca’; na pronúncia de vogais que tem nasalidade opcional, quando se tem uma vogal átona que vem antes da sílaba tônica, como na palavra ‘amigo’”, exemplifica o coordenador do projeto. 

 

Jornalismo - Secom UnB · Ouça os exemplos de variação de pronúncia que o docente Ronaldo Ronaldo Lima aponta como marcantes dos diferentes sotaques

 

A segunda tarefa consistiu na leitura de O Vento Norte e o Sol, uma das Fábulas de Esopo, tradicionalmente utilizada na Fonética como fonte de coleta de dados de leitura em diversas línguas.  

 

A terceira e quarta tarefa foram pensadas para obter dos participantes a fala mais espontânea. Então, eles assistiram a um vídeo e, na sequência, descreveram com suas próprias palavras o conteúdo visto. E, por fim, foram orientados a simular uma entrevista ao pesquisador a partir de um formulário impresso que pedia informações como nome, idade, estado civil, entre outros dados. 

 

“No laboratório temos equipamentos de gravação profissional, para produzir material com alta qualidade. As análises que fazemos não são apenas oitivas, ou seja, alguém ouvindo e dizendo qual é o som, já que nosso ouvido pode não ser tão preciso. Fazemos a análise acústica, abrindo a gravação em um programa de computador e olhando para a onda sonora”, pormenoriza o pesquisador. 

 

Com o recurso é possível “extrair as pistas acústicas, como durações dos sons e frequências, se as vogais são pronunciadas mais abertas ou fechadas, as nasalidades, os acentos”, acrescenta o docente. 

 

ACHADOS – O primeiro ano do projeto foi dedicado à estruturação da pesquisa e ao processo de gravação, segmentação e etiquetação dos trechos de áudio a serem analisados. O trabalho foi realizado com auxílio do software PRAAT. 

 

Agora o projeto está no segundo ano, que será dedicado à análise e ao tratamento estatístico dos dados coletados, o que permitirá apresentar achados mais robustos. Apesar disso, a iniciativa já reúne resultados preliminares, que foram apresentados nos Encontros Universitários do Programa de Iniciação Científica da UnB, durante o  31º Congresso de Iniciação Científica da UnB, em setembro de 2025. 

 

Cursando o sétimo semestre de Letras Português, Amanda Marques é uma das bolsistas do projeto e compartilha que a intenção da pesquisa é “dar luz sobre como é o nosso sotaque e como ele está sendo construído”. 

 

“Devido à inexistência de traços fonologicamente marcados, afirma-se costumeiramente que, em Brasília, não há sotaque ou que o sotaque é neutro. Essa afirmação é corriqueira até mesmo entre os habitantes do Distrito Federal. Todavia, como vimos ao longo deste trabalho, não há um ‘não sotaque’, pois a escolha por traços não marcados constitui sotaque próprio”, pontua Amanda. 

Imagem: Arquivo do projeto
A pesquisa envolve a análise acústica da onda sonora feita a partir da gravação de voz dos participantes no Laboratório de Fonética e Fonologia do Instituto de Letras. Imagem: Amanda Marques/Arquivo do projeto

 

Davi Moreira, estudante de Letras Inglês, também bolsista no projeto, ressalta as contribuições que a pesquisa trará para a temática. “Existem alguns trabalhos que investigaram questões sonoras do falar brasiliense, em especial elementos reveladores de sotaque do português do Brasil mais conhecidos, como o /r/ e o /s/ em coda. No entanto, poucos foram conduzidos utilizando-se de análises acústicas e posterior tratamento estatístico.”

  

O docente Ronaldo Lima complementa: “nessa primeira etapa, olhamos para um quadro geral. O que encontramos, até o momento, é que o /S/ do brasiliense é o que tecnicamente chamamos de 'alveolar', ou seja, é um /S/ que não chia. Diferente do que tem no Rio de Janeiro e em alguns outros estados do Nordeste e do Norte com diferentes maneiras de chiar, e que tecnicamente é chamado como ‘palatalizado’”. 

 

Jornalismo - Secom UnB · O professor Ronaldo Lima vocaliza diferentes pronúncias de palavras com /S/

 

Já o /R/ brasiliense é caracterizado por uma pronúncia sem muita marcação. “É o que tecnicamente chamamos de 'fricativa glotal', que é uma leve aspiração de ar, sem muita marcação. Então não é aquele /R/ que se chama de maneira leiga de ‘R caipira’, nem o /R/ do Rio de Janeiro bem rasgado na garganta, e não é o /R/ que usa a pontinha da língua vibrando, várias vezes encontrado em São Paulo”. 

 

Jornalismo - Secom UnB · O professor Ronaldo Lima vocaliza diferentes pronúncias de palavras com /R/

 

Graduanda em Letras Português, a bolsista Yasmin Jreige reforça que os achados até o momento reforçam que “o sotaque brasiliense não deve ser compreendido como 'neutro' ou como ausência de sotaque, mas, sim, como uma variedade em construção, resultado de um intenso contato linguístico entre diferentes dialetos do português brasileiro”. 

 

FUTURO – “Palavras, uso de gramática e sons, tudo isso junto constitui sotaque”, afirma Lima. “Essa pesquisa na iniciação científica é apenas o começo para a identificação do sotaque brasiliense”, acrescenta o professor sobre a continuidade dos estudos na graduação e pós-graduação, a partir do material coletado. 

 

Interessados em participar podem entrar em contato com o docente pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.. 

 

*estagiária de Jornalismo na Secom/UnB 

 

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