Na semana em que se celebra o Dia Nacional da Imunização, em 9 de junho, a Universidade de Brasília ressalta seu protagonismo na promoção à saúde e na construção de estratégias para enfrentamento a doenças infecciosas, com aposta na vacinação como método eficaz.
No Laboratório de Interação Patógeno-Hospedeiro do Instituto de Ciências Biológicas (LIPH/IB/UnB), pesquisadores se engajam no desenvolvimento de uma vacina capaz de prevenir e combater a doença de Chagas.
Um protótipo já está em teste em animais para avaliar a proteção, a produção de anticorpos e a ativação de células contra a infecção causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. Até o momento, a tecnologia tem apresentado boa resposta imune.
“A gente está com um protótipo já desenvolvido, já testado in vivo. Então, a gente tem algumas formulações de uma vacina capazes de estimular o sistema imune no caso de animais e estimular uma resposta celular, e que têm também um certo nível de proteção contra a infecção”, comenta a coordenadora do estudo e professora do IB, Izabela Bastos.
O imunizante tem tecnologia que permite ao organismo reconhecer o parasita e induz o sistema imunológico a combatê-lo caso o indivíduo seja infectado. Em desenvolvimento desde 2021, a primeira etapa envolveu a otimização de vetores de DNA para a resposta imune ao Trypanosoma cruzi.
Esta fase integrou o projeto de doutorado de Alexandra Carvalho no Programa de Pós-Graduação em Patologia Molecular e teve parte dos avanços realizados durante sanduíche no Muséum National d’Histoire Naturelle, na França.
“Fiz a parte da pesquisa sobre a resposta imunológica que o DNA desenvolveria no camundongo com essa vacina. A gente viu que o DNA era capaz de estimular as células T CD8, que são importantes para eliminar o parasita de forma intracelular”, detalha Alexandra Carvalho, hoje em estágio pós-doutoral no LIPH.
Agora, os pesquisadores do laboratório têm se dedicado à concepção de uma vacina com tecnologia VLP, ou seja, com nanopartículas que imitam a estrutura do vírus, mas não contêm o DNA viral, por isso, não são infecciosas.
“Ela tem a estrutura proteica externa do vírus, e associada a ela partes de um antígeno que seria contra o Trypanosoma cruzi, desenvolvendo assim uma vacina quimérica baseada na tecnologia já disponível no mercado para a malária, que é a única vacina que a gente se tem aprovada para protozoários até o momento”, comenta Andrey Duarte, que dá continuidade ao estudo em seu doutorado.
O projeto tem aporte de cerca de R$ 1 milhão da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).
DOENÇA SILENCIOSA – Considerada uma das patologias tropicais negligenciadas e endêmica em 21 países das Américas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença de Chagas hoje afeta cerca de 6 milhões de pessoas na América Latina. No Brasil, a estimativa gira em torno de 1,9 a 4,6 milhões de casos, sendo uma das quatro maiores causas de morte por doenças infecciosas e parasitárias.
Em geral, atinge populações em vulnerabilidade socioeconômica, com maiores índices nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. O contato, após picada, com as fezes do barbeiro, inseto vetor do Trypanosoma cruzi, e a ingestão de alimentos contaminados com o parasita são as formas mais comum de transmissão. A infecção também pode ocorrer por transfusão de sangue, transplante de órgãos ou contaminação vertical, de mãe para bebê, durante a gestação.
Em seu estágio agudo, a doença de Chagas é, muitas vezes, silenciosa, podendo se manifestar apenas anos depois. Quando apresentada, os sintomas iniciais são febre prolongada – com duração de mais de sete dias –, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e nas pernas. Já na fase crônica, pode desencadear problemas no coração, como insuficiência cardíaca, e digestivos, como aumento do intestino e do esôfago.
“A doença de Chagas ainda possui opções limitadas de tratamento, especialmente na fase crônica. Por isso, buscamos alternativas inovadoras que possam atuar tanto na prevenção quanto como estratégia terapêutica”, explica a docente Izabela Bastos.
SOBRE O LIPH – O Laboratório de Interação Patógeno-Hospedeiro atua com pesquisas sobre os mecanismos de sobrevivência e de virulência de parasitas como o causador da doença de Chagas e no desenvolvimento de estratégias de combate as estas infecções, como vacinas e a prospecção de moléculas antiparasitárias.
Para além de realizar pesquisas, é um espaço de formação de profissionais e pesquisadores qualificados para atuar na área, incluindo em suas atividades a participação de estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado.
Confira matéria da UnBTV sobre a pesquisa:
*com informações da UnBTV e da FAPDF.