A relação entre as características ambientais e produtivas do café do Distrito Federal é alvo da primeira fase de pesquisa multidisciplinar conduzida na Faculdade de Ciências da Saúde (FS) da Universidade de Brasília. Os diagnósticos iniciais dão conta de que há elementos para uma diferenciação territorial e projetam a produção científica da UnB e agrícola do DF com a proximidade do Dia Nacional do Café, celebrado neste domingo (24).
Entre as singularidades do terroir brasiliense – ou seja, o conjunto de fatores locais que interferem no produto final – está a junção de altitudes elevadas, predominância de pequenas propriedades irrigadas e estação seca durante o beneficiamento dos grãos. O avanço dos estudos para uma fase comparativa com outras áreas de cultivo pode subsidiar a requisição do reconhecimento de indicação geográfica (IG) por produtores locais.
A distinção comprovaria que o café brasiliense tem qualidades e características diretamente relacionadas ao território, o que agregaria valor ao produto, fortaleceria a identidade regional e poderia aumentar os rendimentos do setor.
Os elementos específicos necessários incluem aspectos naturais, como solo, relevo e clima, e também humanos, entre eles o manejo dos grãos e as técnicas de produção. A IG é concedida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi) após criteriosas análises de produtos e serviços.
“Os estudos encontram-se em fase avançada de consolidação e análise de dados. Desde 2024, o projeto realiza o mapeamento da cafeicultura, a caracterização dos produtores e o levantamento de fatores ambientais”, explica a professora e coordenadora da pesquisa, Lívia de Lacerda.
“Além do diagnóstico territorial já realizado em parceria com a Embrapa Café [unidade especializada da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] e a Emater-DF [Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural], o projeto avançou para a análise da qualidade dos cafés locais. As etapas de integração desses dados e a produção científica seguirão em andamento ao longo de 2026”, diz a docente, vinculada ao Departamento de Nutrição (NUT/FS).
A pesquisadora classifica como fundamental a sequência com análises comparativas entre o terroir brasiliense e outras localidades. “Isso exigiria isolar as cultivares mais expressivas da região e compará-las com os mesmos materiais cultivados em outras partes do Brasil, sob condições semelhantes de pós-colheita e processamento”, diz ela, que apresentou alguns dos primeiros resultados de pesquisa esta semana na Feira de Tecnologia e Negócios do Agro (AgroBrasília).
As três variedades mais comuns na cafeicultura local são as de mais interesse para os estudos. São elas: catuaí vermelho, catuaí amarelo e arara. Todas pertencem à espécie Coffea arabica.
PESQUISA INTEGRADA – Além da nutrição, os trabalhos envolvem pesquisadores de áreas como química, farmácia, engenharia de alimentos e relações internacionais. Três laboratórios são utilizados nos experimentos: Análise Sensorial (Lasens), de Ciências de Alimentos (LCA) e de Tecnologia de Alimentos e Bromatologia (LTAB).
A infraestrutura de pesquisa conta com ultrafreezers de baixíssima temperatura (-80ºC) para preservação de amostras, além de plataforma analítica avançada de cromatografia gasosa (GC) e líquida (LC) acoplada à espectrometria de massa. Esses equipamentos são essenciais para separar, identificar e quantificar compostos voláteis e não voláteis da matriz do café.
O projeto recebe financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do DF (FAPDF) e, além de Embrapa Café e Emater-DF, tem como parceiros o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Secretaria de Agricultura do DF (Seagri), o Campus Venda Nova do Imigrante do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e a associação de produtores Elo Rural.
POSSIBILIDADES DE IG E OUTRO AVANÇOS – O Inpi prevê dois tipos de indicação geográfica: a indicação de procedência (IP) e a denominação de origem (DO). Para o primeiro caso, o manual do instituto aponta a necessidade “de que uma determinada área geográfica tenha se tornado comprovadamente conhecida como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço”. Com esse reconhecimento, o produto ganha proteção de seu nome geográfico.
Mais específica e complexa, a DO “pressupõe que as qualidades ou características de uma determinada área geográfica, incluídos os fatores naturais e humanos, influenciam exclusiva ou essencialmente um produto ou serviço, tipificando-o”. A ausência de um desses fatores inviabiliza o registro. As qualidades e características típicas precisam ser tecnicamente comprovadas no produto ou na cadeia de produção.
A técnica do LTAB e pesquisadora do doutorado em Química da UnB Juliana Fernandes avalia o andamento das pesquisas como promissor para os possíveis pleitos dos cafeicultores. “Espero que a gente possa produzir resultados que sejam úteis e garantam retorno à comunidade”, diz ela, que é egressa da graduação e do mestrado em Química e também estuda grãos produzidos na região Norte.
Lívia de Lacerda orienta Juliana e avalia que a presença da UnB nos estudos sobre a cafeicultura no DF representa “a oportunidade de integrar pesquisa, extensão e inovação, aplicando o conhecimento científico a desafios reais do território e do setor produtivo. É também um espaço vital para a formação de estudantes e o fortalecimento de parcerias voltadas ao desenvolvimento regional”.
A oferta de cursos de extensão para produtores e a criação do software CVA Data, que substitui formulários de papel nas análises sensoriais e físicas do café, são exemplos dos impactos já alcançados. “O projeto demonstra que ciência e território caminham juntos. Embora a cafeicultura no DF seja mais recente que em outras regiões, o território já apresenta resultados expressivos em produtividade e qualidade. O foco atual é ampliar o conhecimento técnico sobre a produção local e valorizar o trabalho dos cafeicultores”, afirma a professora.